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Mar 11

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FOTO: DGAUDIO

 

 

 

 

 

 

A PORCA DO DENTE DE OURO NO BAIRRO BUENMOS AIRES

 

 

 

COMO SURGEM AS LENDAS

 

Como surgem as lendas? Elas nunca têm um ponto exato de partida, uma origem exata: elas são como boatos, fofocas, o famoso “disse me disse”; “alguém falou”; “alguém me contou”. Em geral, elas apresentam uma referência ligada a fatos, pessoas, acontecimentos ou algo do gênero, onde todos afirmam categoricamente que a sua versão é verdadeira e original. Em alguns casos, têm seu início em um fato verídico; mas, a partir do fato, os detalhes passam a ser distorcidos através da famosa rádio “boca a boca” e, ao final, os detalhes têm suas versões alteradas, o que terminam por caracterizarem-se em mitos. Como passar dos tempos, os mitos tornam-se lendas. E como não poderia ser diferente, temos aqui a lenda da PORCA DO DENTE DE OURO.

A narrativa a seguir será baseada e formulada em fatos e situações vivenciados pelo autor e pelos moradores do Bairro Buenos Aires, na década de 70, em um diálogo simulado com os personagens deste conto, com algumas situações e fatos fictícios.

***

 

A PORCA DO DENTE DE OURO NO BAIRRO BUENOS AIRES

 

A PORCA

Nos olhos tinha fogo e fogo tinha nos olhos. O barulho de uma manada e a quebradeira de um estouro. Estouro de uma porcalhada com mais de mil barrões. Fedia a barrão, e a barrão, fedia muito! E o fedor? Ninguém aguentava! Suas grandes presas eram de ouro, e de ouro eram as presas. Brilhavam sob a luz e os raios da lua. Dizia o povo nas ruas que ela comia criancinhas.

 

 

 

***

A LENDA

 

História ou lenda, mito ou verdade, o fato é que tínhamos até os suspeitos de serem a suposta porca e o lobisomem. E os suspeitos era um casal formado por mãe e filho. Para onde esse casal se mudava, a porca também ia. Onde eles estavam, a porca sempre aparecia. A danada era grande e cabeluda, afirmavam as pessoas.

Porca essa que a muitos assustava, ora correndo, ora fuçando nos monturos da cidade.

Certa vez, Dona Tereza e suas filhas passavam de noite por um caminho e viram a dita cuja: uma porca grande e preta, a interromper a passagem delas. Ambas tiveram que seguir por outro caminho.

Dizia Dona Tereza, que a bicha era grande, do tamanho de um jumento, e muito cabeluda. Tão grande era a porca, que nesse dia, ou melhor, nessa noite, ela e suas filhas passaram uma semana acamadas, tamanho fora o susto.

 

***

 

 Surgiram, na época, muitas histórias, relatos e testemunhas que afirmavam de pés juntos terem visto a porca. Contavam até do sumiço de filhotes de porcas (leitões.) e que, segundo afirmavam as pessoas, era um dos alimentos preferidos da porca. Outra testemunha afirmava ter visto a porca comendo porquinhos.

Tamanho era o medo das pessoas, ao ponto de relatarem até o sumiço de bebês e de casas invadidas pela porca. Naquela época, havia muitas casas cobertas com palha de babaçu e as portas eram feitas em estiras, com a palha de coco.

 

***

 

A porca pode ser lenda, os relatos podem ser fictícios,  mas o medo das pessoas era real, na época, e estampado na face delas. E este relato é verídico, pois quem o escreve, vivenciou, na época, embora a porca nunca tenha sido, de fato, vista ou fotografada.

E aí, você viu a porca do dente de ouro?

 

***

 

Bem pessoal, mas isso é lenda! E lenda é mito. O fato é, que por muito tempo, essa história assustou muita gente.

 

***

O ALVOROÇO

 

— Cuidado com a porca! – Gritou Cumbuca.

De repente ouviu-se um alvoroço:

— Pega a porca!

— Cuidado com a porca!

— Ela está aqui!

— Não! Correu pra lá!

— Traz a corda!

— Ei, Cumbuca, tá vendo a porca?

— Não! Acho que ela sumiu no meio do mato.

 

Assim era a vida dos moradores do Bairro Buenos Aires e comunidades circunvizinhas. Todos viviam assustados, apavorados com a história da porca do dente de ouro. Ninguém mais tinha sossego, pois sair à noite era uma aventura arriscada e perigosa. Quando não era a porca, era o lobisomem.

 

***

 

 

 

 

O BAR DO SILAS

 

 O bar do Silas era o mais frequentado da região, pois ele ficava em uma localização bem estratégica, todos tinham que passar em frente ao recinto, sempre que se deslocavam aos seus destinos e localidades próximas.

Entre os frequentadores do bar, estavam os três fofoqueiros da região: Cabaça, Cumbuca e Coité. E, como todos sabem, barbearia, salão de beleza e bares, são os lugares preferidos para os fofoqueiros; nesses lugares fala-se de tudo: o galo da vizinha, a vida do padre, o padeiro e até do papagaio ao lado. Neste dia, tinha uma turma boa de pés inchados, bebendo e jogando porrinha.

O bar funcionava anexo a uma mercearia que pertencia ao Santos, irmão do Silas; e tinha um entra sai de pessoas que iam comprar alguma coisa, ou mesmo só para saber das novidades, até por que o bar ficava próximo a uma parada de ônibus: a única da região, para ser mais exato.

 

***

 

Um bêbado, com cara de assustado e meio barbudo, resolveu quebrar o silêncio:

— Vocês souberam de ontem à noite?

— Fala da porca? (perguntou outro)

— É, quase que a gente pega a bicha.

— Mas ela é muito grande, do tamanho de um jumento.

— E tem as presas enormes. (falou outro)

— Meu irmão, e o ronco da danada? Até parece o esturro de um leão!

— Meu amigo, é uma catinga miserável! Um fedor de barrão.

— Dizem que ela come criancinhas, sabe?... Recém-nascidos

— Outro dia eu fui ali, no matagal... Ali, na igreja verde, na baixada...

— E o que tu foi fazer lá, Pronxinha? (interrompeu Coité)

— Aposto como não estava só!

— Pois é, fui lá com uma dona... Uma gata! Mas quando eu estava me animando, ouvi uma quebradeira no cipozal e um fedor de barrão! Meu amigo! Não contei história, piquei a mula! Saí na carreira sem olhar para trás.

— E a gata? (perguntaram)

— Sei lá! Eu queria era fugir da porca.

 Todos caíram na gargalhada.

— Cabra, frouxo!

— Frouxo, é?

— Eu queria ver se fosse um de vocês. Parece que vinham mil porcos juntos com a danada, tamanho era o barulho!

Cumbuca resolveu entrar na conversa.

— Ei, pessoal! Cá entre nós... Está todo mundo desconfiando daqueles dois...

— Qual? (Perguntou o Cabaça)

— Aquele casal que se mudou pra cá faz pouco tempo.

—...?

— Aquele que mora com mãe.

— Ah! Entendi.

— Pois é, dizem que é amigado com a mãe, entende?... Amancebado!

— Vocês já reparam? A velha tem duas presas de ouro.

— Sabe que é mesmo?

— E vocês já perceberam que ela tem os cotovelos todos feridos?

— Dizem que é porque quando ela vira porca, usa os cotovelos para andar com eles apoiados no chão.

— Pois é, esse casal já morou no alto do bode, na primavera, e na cajaíba. Toda vez que eles mudam de lugar, a porca muda também.

— Pois não é mesmo, rapaz! E o danado é que aonde eles vão, a porca aparece.

— E o lobisomem também.

— E tem mais, dizem que o marido dela a largou, com ciúme do próprio filho.

— Então ele deve ser o lobisomem que anda com a porca!

— Porque o cabra que se deita com a mãe, vira lobisomem.

— Ê! Sei não! Mas essa história está muito mal contada! (falou o Cumbuca)

— Um dia, vinha eu e minha mãe da igreja, lá pelas dez da noite. E, quando chegamos naquele trecho da Avenida União, onde não tem luz, totalmente escuro, de repente, uma mulher nos acompanhou, e, com um jeito ofegante e assustada, se aproximou de nós e falou:

— Me deixem acompanhar vocês, porque eu tenho medo de ir sozinha! Imaginem que outro dia eu vinha do trabalho, nesse mesmo horário, e quando cheguei naquele morro, onde é totalmente escuro, eu vi um vulto escuro. Aquela coisa preta e enorme; peguei uma pedra e joguei. Ri, ri! Mulher! Eu ouvi foi o grito: era um casal de namorados! Acertei com a pedra neles.

— O fato é que anda todo mundo com os nervos à flor da pele. Todos andam assustados com essa história da porca do dente de ouro.

— O medo é tanto, que outro dia, uma turma de umas trezentas pessoas acuou a porca no cemitério.

— E aí, pegaram?

— Que nada!

— A bicha é lisa como um sabão!

 

— E como foi, Cumbuca? Conta pra nós como foi lá...

 

***

— Cumbuca!

— Oi, Coité.

— Tu tá levando as cordas?

— Estou, e acho que o Cabaça está levando uma rede.

— Estou sim.

— Vamos lá, pessoal! Hoje a danada não escapa!

Tinha cerca de umas 300 pessoas para pegarem a porca. Na verdade, corria um boato de que a mula sem cabeça também estaria por lá, pois havia relatos de moradores do local, que durante a noite, era uma quebradeira, relinchadeira e uns guinchos muitos estranhos, misturados com um tal de roncar e fuçar de porcos.

— Ei, Tonico!  Tu fica lá do outro lado com os outros, e eu vou ficar deste lado.

E assim ficaram de tocaia. Espalharam-se na escuridão por detrás dos túmulos. Quando, de repente, alguém falou meio abafado: lá vem a bicha. Prepararam-se e deixaram-na se aproximar; resolveram então fechar o cerco.  Lá vem a porca fuçando e guinchando. A turma se alvoroçou toda e passaram a mensagem para os outros:

— está chegando, pessoal!

— Vamos fechar o cerco.

— Hoje nós pegaremos a danada!

De repente, a bichona apareceu na escuridão por detrás dos túmulos. Foi aquela correria toda.

Viram aquele vulto enorme saindo mata afora (porque havia muito mato na época)

— Pega a porca!

— Lá vai ela! (gritou alguém dentro do mato)

— Segurem a porca!

Alguém gritou na escuridão. Foi gente correndo e gritando, gente caindo e tropeçando na escuridão.

— Pega!  Pega!

— Não deixa a porca escapar!

— Pega! Pega!

— Lá vai ela! Segurem a porca!

E naquela correria toda, saiu a multidão em disparada, correndo e gritando, gente caindo ao chão, ferindo-se nos tocos, pontas de paus. Uns tropeçando nos outros. Gente caindo, gente gritando.

— Pega, pega!

Tangeram a porca em direção à saída do cemitério. Foi então que chegaram a um lugar iluminado pela luz do luar e perceberam então o engano. Qual não foi a surpresa ao descobrirem que era uma porca comum.

O Sr. Francisco, morador do Bairro Alto do bode, relata que seu filho, certa vez, fora ao mato para fazer uma necessidade fisiológica (naquela época não havia banheiro em sua residência) e, quando o menino se preparava para tal, vira aquela porca grande, vindo em sua direção. Assustado, ele saiu correndo e gritando:

— É a porca do dente de ouro!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DGáudio Procópio

publicado por dgaudioprocopio o Poeta às 03:28

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